sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Odiado, com todo o amor do mundo



Parafraseando Caetano: “é que quando cheguei por aqui, eu nada entendi. Da poesia discreta das tuas esquinas, da deselegância concreta das tuas meninas.”

Havia viajado seis horas de carro. Deixado pra trás, família, namorada e amigos. O calor da cidade era sólido. Transpirava de tal maneira, que a parte do meu pé, coberta pela tira da sandália, começava a irritar.

Eu caminhava pela Tijuca, atrás de opções para o almoço diário, o bairro era úmido e cinza, sem a brisa do mar. Se o jardim botânico, é o sovaco de Cristo, a Tijuca é a bota perdida de Judas. Parei para tomar uma cerveja, que no terceiro gole já estava quente. A cidade maravilhosa começava a me irritar.

O calor eu tirei de letra. O problema foi compreender e aceitar o andamento das coisas.Parecia que a ética carioca não estava ao meu alcance. Talvez, estivesse escondida no por do sol de Ipanema, ou em uma roda de samba na lapa.


A princípio, me rendi à cultura carioca, comecei à da valor à feijoada com samba, ao chopp em pé na calçada, ao maracanã lotado e descobri o bairro mais bonito do mundo: Santa Teresa. Não era possível que o lugar onde nasceu: Cartola, Noel, Vinícius, Machado de Assis e Lima Barreto; fosse apenas uma cidade tomada pelo tráfico, pela lei de Gerson e pelo desleixo.



Eu Vinha daquele maniqueísmo mineiro, influenciado pelo paulocentrismo vigente. Resultado da adição de uma série de culturas européias, num clima brasileiro. Tendo como arma apenas o narcisismo: negando tudo que não fosse o espelho.

Mas o Rio, me ensinou a romper com o espelho, a não ter medo de mudar. E ter coragem suficiente para mandar, de quando em vez, a racionalidade às favas. Pois o surgimento da cidade maravilhosa, veio da insensatez de construir uma cidade entre o morro e o mar.

Descubri, que o Rio tinha sido mal catequisado. Talvez os jesuítas tenham se distraído com as mulheres e as praias, e esquecido da pregação. Por isso a ética daqui está tão distante do cristianismo barroco mineiro, do espírito saxixônico sulista e do protestantismo paulista.


O jeitinho carioca, na verdade, não é a louvação do desleixo, mas a consequência dele. E no mundo de hoje, cada vez mais uniforme, peculiriadades não são bem vindas.Ainda mais, quando estão na contra mão de tudo.


Esse jeitinho, muitas vezes confundido com brasileiro, não é o ideal para os tempos de prosperidade econômica. A ironia fina, e o anarquismo nato, não cabem num tempo em que – posto que a beira de um colapso - tudo deva ser levado a sério. Onde as pessoas, sedentas por espetáculo, exponham excessivamente seus defeitos, mas não permitam críticas.


Como no mundo de hoje o certo é economicamente viável, a cidade, do chinelo de dedo e do jornal lido dentro das bancas de jornal, se torna o patinho feio brasileiro. Mas e daí? Quem amo o feio, Maravilhosa lhe parece!

Obs: Graças a filosofia do adiamento, que empurra seis horas anuais, pra debaixo do tapete, temos que de quatro em quatro anos pagar um dia de juros. Não fosse isso, o aniversário do Rio seria hoje...


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